quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

SOMBRAS MADURAS


Djanira Silva


          A janela é um toque de luz na casa flutuante na superfície da água. Não adianta mudar o foco de visão, o olho da janela, sempre no mesmo lugar, tem vida como o olho de uma fotografia ou as asas do vento batendo forte nas águas do mar.
          Círculo que se fecha em sucessivas ondas, braços prateados, coloridos, arco-íris restaurado no que resta do mundo.
          O olhar pendurado na janela. Mistério de imagens imersas, petrificadas numa parda que não me permite ver o essencial.
          Cheio ou vazio, o mundo é mistério. Difícil saber onde começa, onde termina.
          Algemada à saudade, nunca serei livre. Prendem-me as formas e as cores do perigo. Não posso ver o outro lado enquanto as sombras amadurecem, mudam de lugar e não refletem meu rosto nem a mão que me tortura. Formas indefinidas oscilam nas faces, nos olhos, no sorriso de uma superfície sem definição.
         Abre-se, cada vez mais, a janela. Não consigo fugir à hipnose do tempo. Tento ler as legendas do mundo, legendas que me falam de quem ri, de quem diz não. Círculos, sombras, formas geométricas, certezas.
          O vento fecha a janela, apaga a porta. Não tenho como fugir das imagens que amanhã voltarão, embora eu não saiba onde ficou o ontem, onde estará o amanhã.
          Rio, mar, cachoeiras. Apenas bolhas e espuma nos desfiladeiros. Na alma a agonia do invisível nas armadilhas dos sonhos.


Obs: Texto retirado do livro da autora – A Morte Cega